Porque é que me sinto em luto desde que emigrei?


"Quando decidimos deixar para trás a nossa terra natal, a verdade é que estamos a abdicar e a despedir-nos da realidade que até aí chamávamos casa."

Aquilo que nos ensinam e que nos explicam é que o luto se faz quando perdemos alguém. Acontece que na verdade quando falamos de luto, falamos de perdas e essas perdas não têm de estar necessariamente ligadas apenas à perda física de uma pessoa querida. Esta perda pode decorrer igualmente de uma perda de emprego, um divórcio e sim, pode decorrer, sem sombra de dúvida de uma mudança de país.

Quando decidimos deixar para trás a nossa terra natal, a verdade é que estamos a abdicar e a despedir-nos da realidade que até aí chamávamos casa. Emigrar implica perder o quotidiano dos nossos amigos e famílias, as suas conquistas e evoluções, abdicar de comer todos os dias os alimentos a que estamos habituados, abdicar de falar a nossa língua mãe (a língua das emoções), implica igualmente saber dizer adeus vezes sem conta nos vários aeroportos deste mundo. E quando estamos dispostos a abdicar de tudo isto, significa que a adaptação que fazemos à nossa nova vida, acarreta a transformação dos laços que criamos com toda a nossa realidade.


De um ponto de vista pessoal, sempre defendi que no luto não existe uma desvinculação mas sim uma reformulação da relação com aquele significativo e portanto não tem necessariamente de haver um rompimento. De facto, quando decidimos emigrar, não significa que esquecemos as nossas famílias, os nossos amigos, os nossos amores, colegas, animais; não significa que gostemos menos seja de quem for. E por isso mesmo é que vamos criando novas formas de nos relacionarmos.