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E depois do medo. O adeus?

Para os seres com competências cognitivas diferenciadas e evoluídas - quiçá apenas do ponto de vista do sistema - pedir ajuda parece ser um sacrifício. Mas não deveria. Na verdade, parece ser evidente dizer-se que nunca deveria ser um sacrifício pedir ajuda. Talvez antes de dizer adeus, se possa voltar ao que os micro-organismos nos ensinaram.



O ser humano é um "bicho complexo". Não é a primeira vez que se ouve a expressão. Não deverá ser a última. Mas a verdade, é que é mesmo um sistema complexo. Um sistema que observa diversas ligações cognitivo-emocionais. Ora aqui está, possível, um dos principais problemas do ser humano. A ligação cognição-emoção. Problema, ou virtude. Alguém que escolha. Porque o segundo problema - ou virtude - é a sua capacidade de adaptação.


A capacidade de adaptação é uma característica dos seres mais evoluídos.


Normalmente servem-se os seres desta competência para, em tempos adversos, conseguirem sobreviver. Observamos isso nas notas sobre a evolução das espécies de Darwin por exemplo ou nas ideias antigas com uma lente moderna e elegante de Damásio.


No entanto, a pergunta que pode ser colocada neste momento é se estas características são, atualmente, um problema ou uma virtude. Vejamos, em termos genéricos, o que parece ter acontecido não foi nada mais do que uma mistura entre alguns enviesamentos cognitivos de confirmação e uma preponderância de uma consciência coletiva que se inclinou para medidas menos restritivas e que iniciou uma autodeterminação sobre alguns aspetos que antes eram desconhecidos, tal como foi elaborado por Durkheim quando este escreveu sobre este tema.


A acompanhar a este cocktail de potencial erro de decisão, o facto é que a maioria das pessoas estão cansadas.

Em primeiro lugar, deveria ser importante pensar-se em forma de acautelar erros de decisão. Para isso é necessário fazer um zoom out e neste momento é extremamente difícil de se conseguir tal ato. Não existe uma boa parte da população que não esteja a viver sob as mesmas circunstâncias. Por isso, encontrar uma forma de "sair da bolha" que o contexto atual tem, quase que se arrisca a afirmar que é impossível.


Em segundo lugar, o normalizar do cansaço. Parece que estar-se cansado atualmente pode ser uma forma de dizer ao coletivo social "não aguento mais" ou até mesmo "não sou forte o suficiente". E embora este tipo de mensagens pareçam algo que se traduz em fraqueza, a verdade é que esse aspeto deveria ser visto como um sinal de coragem.


Mostrar as fragilidades em momentos de tensão deveria, de facto, ser visto como uma competência diferenciada.

Se olharmos para o funcionamento dos organismos mais simples que existem, estes costumam funcionar por entreajuda, em francas relações de cooperação. A possibilidade de não existir moral nem consciência social nestes organismos dá-lhes uma capacidade de vingar apenas e só com um único objetivo, sobreviver. E por essa razão, fazem-no de forma simples. Trocam energia, pedem ajuda, recebem ajuda e sobrevivem.


Para os seres com competências cognitivas diferenciadas e evoluídas - quiçá apenas do ponto de vista do sistema - pedir ajuda parece ser um sacrifício. Mas não deveria. Na verdade, parece ser evidente dizer-se que nunca deveria ser um sacrifício pedir ajuda.



Talvez antes de dizer adeus, se possa voltar ao que os micro-organismos nos ensinaram. Pedir ajuda e ajudar. Entrar nesta troca simbiótica sem pensar muito. Isto porque, as dimensões evoluídas do nosso cérebro individual e coletivo, ao que parecem, estão cada vez mais enviesadas, e cada vez mais propensas a errar nas suas decisões.


Francisco Valente Gonçalves

Psicólogo Clínico e da Saúde, Psicólogo Forense

Cofounder RUMO




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