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Depressão não é preguiça

É uma doença biológica que atinge o cérebro e o corpo com uma prevalência de mais de 350 milhões de pessoas em todo o mundo (estimada pela OMS). Portugal é o país da Europa com a taxa de depressão mais elevada (o segundo do mundo só excedido pelos EUA), onde a maior causa de suicídio é a depressão (70%) e de 8 em 8 horas morre um português por suicídio. Levantam-se portanto uma série de questões, em múltiplos contextos, associadas às causas, sintomas e tratamentos da depressão.


Mas o que é realmente a Depressão? É uma doença que altera a forma como vemos e sentimos a realidade, como entendemos as situações e manifestamos emoções. Caracteriza-se por uma sensação prolongada de tristeza, alterações de humor, perturbações do sono e/ou de apetite, perda de energia, de auto-estima, de interesse em realizar atividades que antes eram prazerosas, falta de concentração e de memória.


Continuam a persistir ideias erradas sobre a Depressão. Muitas pessoas acreditam que é um estado de espírito que passa, que é sinal de fraqueza, que é preguiça, que pode melhorar com pensamentos positivos ou pela força de vontade.

De facto, a duração dos sinais é o que distingue uma tristeza comum da Depressão, doença que pode durar semanas, meses ou anos, e não é ultrapassada pela força de vontade ou otimismo. A vontade é uma das funções mentais que se encontra deficitária nesta condição, não sendo possível pedir à pessoa deprimida que a utilize para se reerguer. Estes diversos preconceitos provocam sentimentos de frustração, vergonha, culpabilização e uma sensação de desajuste perante a sua incapacidade de reação.


Como Psicólogo Clínico, conheço bem a amplitude dos preconceitos da área: “os psiquiatras são para doidos; ir ao psicólogo é o mesmo que ter uma conversa com um amigo; os medicamentos só pioram e não ajudam”, entre outros. Pois bem, o primeiro preconceito está presente na própria pessoa que não encontra justificação para se sentir deprimida e culpabiliza-se. Esta doença não surge de um dia para o outro. Vai surgindo gradualmente, levando à desconexão da vida e das emoções positivas, visto que o ser

humano tem por hábito desvalorizar o que teme, o que o preocupa, como se o ato de não pensar simbolizasse proteção ou resolução dos seus problemas.


Quando retraímos as nossas angústias, medos e problemas, posicionamos estes numa área oculta da memória, que nunca leva à sua resolução mas sim ao seu agravamento.

Ora, para se deixar de viver o mais rapidamente a doença é fulcral educar as pessoas para os sintomas da Depressão. Estima-se que o tempo médio entre os primeiros sintomas e a procura de ajuda seja de quatro a seis anos e é, da máxima importância, reduzir este intervalo de tempo para seis meses a um ano. Tal como em todas as doenças, a prevenção é a melhor abordagem, tendo o diagnóstico prematuro um fator de diferenciação para o tratamento.


A doença depressiva é muito mais comum do que se imagina e pode exibir diferentes níveis de gravidade que se refletem na intensidade dos sintomas e nos riscos de saúde (para a pessoa deprimida e cuidadores). Pela gravidade dos sintomas esta doença pode

ser classificada como leve, moderada ou grave. Ao nível da funcionalidade, a depressão leve caracteriza-se por um indivíduo que é capaz de manter a sua rotina, apesar de lhe exigir algum esforço, podendo ser tratada sem medicamentos exclusivos, mas sim com

exercício físico, uma alimentação saudável e uma boa qualidade do sono. Na fase moderada da doença, o indivíduo é absorvido por pensamentos negativos obsessivos, que lhe trazem um grande prejuízo e sacrifício para manter as suas atividades diárias. Já a fase grave caracteriza-se por um sofrimento intenso, pensamentos suicidas, sintomas psicóticos, falta de apetite e vontade de viver.


Também existem depressões na presença de alguns eventos particulares como o luto prolongado após a perda de um familiar ou amigo; derivado do diagnóstico de doenças graves; antecedentes de bullying; depressão pós parto; depressão sazonal (ocorre em fases do ano distintas, geralmente com mudanças de estações) e depressão resultante de alterações hormonais (menopausa e andropausa). Quando a Depressão aparece devido à perda ou ao luto, a generalidade das pessoas compreende e aceita melhor, mas a maior parte das pessoas deprimidas preferia ter outro tipo de doença com sintomas mais visíveis e físicos, para o seu sofrimento ser mais óbvio e existir uma maior compreensão da doença em si.


É da máxima importância passarmos a encarar a doença mental da mesma forma como encaramos a doença física.

O que a ciência sabe na atualidade é que o cérebro de uma pessoa deprimida não é igual ao de uma pessoa sem depressão. Durante a doença, o funcionamento do cérebro modifica-se, provocando desequilíbrios no metabolismo dos neurotransmissores, resultando em níveis baixos de BDNF (Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro, proteína com um papel central no desenvolvimento, fisiologia, patologia do sistema nervoso e com um papel essencial em processos relacionados com a plasticidade cerebral como a memória) e em instabilidade na manutenção das sinapses. São estas áreas cerebrais afetadas que passam a ter uma reduzida atividade neuronal que são responsáveis pela monitorização e domínio do nosso estado de humor, apetite, memória, atenção, sono, entre outras funções.


Estudos mais recentes descobriram que estas alterações no funcionamento da rede cerebral agregada à recompensa, parece antever o alojamento do problema depressivo.

Para além dos estudos existentes, sabe-se que o tratamento é individualizado, com aliança terapêutica entre o psiquiatra, o paciente, a utilização do antidepressivo e o psicoterapeuta. O psicólogo, através da psicoterapia, proporciona a ajuda necessária para a resolução dos problemas que levaram ao episódio depressivo. Fatores como uma boa relação interpessoal e familiar, atividade física e mudanças no estilo de vida, desempenham um papel fundamental na obtenção de resultados. Com a psicoterapia é permitido intervir eficazmente com técnicas adequadas para desmantelar a espiral negativa e de inatividade que condiciona o cérebro da pessoa deprimida. É o trabalho em conjunto de médicos e terapeutas que favorece a recuperação e a prevenção, uma vez que a maioria das pessoas que já teve a doença acabam por sofrer novos episódios depressivos, por não terem tratado as suas verdadeiras causas.


É vulgar ouvirmos dizer que os portugueses tomam antidepressivos em excesso. Pois bem, o cerne da questão é o que consideramos ser um antidepressivo. Quando é proferido “antidepressivo” podemos também estar a referir estabilizadores do humor, calmantes, hipnóticos e sedativos. Profissionalmente, considero não existir uma grande clarividência acima de tudo entre antidepressivos e benzodiazepinas, que normalmente apelidamos de tranquilizantes, calmantes ou ansiolíticos. É muito importante referir que os antidepressivos não causam dependência, não modificam a personalidade da pessoa deprimida e não têm efeitos secundários que impossibilitem uma vida normal.


Admito que tratar uma pessoa deprimida e acompanhar o seu “despertar” para a vida de uma plena inércia à vivacidade, da destruição à autogeneração, das máscaras emotivas do vazio à plenitude do viver, é uma experiência emocional sem descrição que todo o psicoterapeuta deve ser capaz de vivenciar. O que sabemos é que nos dias de hoje a depressão surge cada vez em idades mais jovens e que, no decorrer da vida, o risco dos

episódios depressivos tendem a ser mais frequentes e de maior intensidade.


Não estou certo quanto à plena consciência desta realidade, contudo sei que já é, desde há muito tempo, a altura certa para nos consciencializarmos de que a depressão não é “sentir preguiça” mas sim um problema de saúde pública.


Miguel Firmino

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