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Deixar o coração no aeroporto

[este é um texto que foi construído depois da revisita de alguns apontamentos que fui fazendo durante o período que estive emigrado no Reino Unido durante 3 anos e meio]


Eram 4:30 da manhã. Acordava, depois de um sono leve que nem chegava para descansar a cabeça tal era a agitação com que me deitava. Costumava chegar tarde na noite antes. O dia anterior começava cedo. Pequeno-almoço com colegas da adolescência que ficaram neste círculo, cada vez mais pequeno, a que chamamos da amizade. O almoço em casa dos avós maternos, perto da praia onde se bebia café e se olhava para o mar pensando no que dizia Fernando Pessoa:


"Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar!"


O lanche, mesmo sem fome, com outros amigos, estes que apareceram no tempo da faculdade. Compinchas dos velhos tempos. Dos tempos que ainda ninguém imaginava que fazer um check-in online entre pedir uma imperial sagres e um pires de tremoços custava tanto. Era o sinal de "está quase", era um pré-aquecimento para "mais uma viagem". Uma viagem que levava a questionar toda a vez, valerá a pena? Nas palavras do poeta, tudo vale a pena, quando a alma não é pequena. E se a alma dos Portugueses no Mundo não é pequena. Tenho a certeza que não é.


O jantar alheira. Esse prato tão simples. Tão cheio de história. Tão nosso e de outras culturas que enganaram bem quem tinham de enganar.

O moscatel de Setúbal no largo do Intendente.



Tudo coisas que deixaram de ser simples. Tudo coisas que se antes seriam tidas como presentes e adquiridas, deixaram de o ser. Valeria a pena deixar tudo? Pegar na mala cheia de emoções e seguir caminho rumo a um país longe, onde o fado tocava através de um tablet? Onde as fotografias eram tantas que não havia espaço para ver a cor da parede.


"Quem quer passar além do Bojador, tem de passar além da dor". A alegria de pensar que um dia se iria voltar. Voltar onde o coração ficava. Sempre.


Com tanta coisa para levar, o coração ficava sempre no aeroporto.

5:30. As filas da segurança são cada vez maiores.

Até já Portugal.


Francisco Valente Gonçalves

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